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quarta-feira, 1 de junho de 2011

o swing, o sofazão e uma monografia

Faz tempo que queria falar sobre a minha monografia. Pensei em postá-la no blog e talz. Porém, um trabalho acadêmico, por mais interessante que seja, é extenso e não combina com o blog, que dizem ter um cunho sexual. Se bem que a monografia foi sobre turismo sexual. Então, antes do conto sobre troca de casais, que virá em breve, segue parte da monografia.
Resolvi resumir e analisar de forma mais informal o trabalho acadêmico. Primeiro queria dizer que durante a faculdade fui um bosta de aluno. Trabalhava oito horas por dia, que somados as duas horas de almoço, e a deslocamentos de casa ao trabalho de uma hora, me roubavam onze horas do dia. Ou seja, metade do meu dia era dedicado a qualquer coisa que não fosse a faculdade. E pasmem!, eu dormia durante a faculdade. Em média, digamos, sete horas por dia. Dezoito horas por dia não dedicados aos estudos e ao descanso. As aulas eram a noite, três horas e meia. Restava pouco tempo para estudar. E eu preferia namorar. Aos sábados o tal do curso de inglês. Restava pouco tempo por semana para ser um bom aluno. E eu desperdicei.
Então pensei que seria importante fazer alguma coisa legal na faculdade. Meus colegas eram bolsistas, faziam estágios, participavam de programas de extensão. Eu não. Resolvi que a monografia poderia fazer com que minha passagem pela faculdade não fosse um breu total.
Assim decidi falar sobre turismo sexual. Não concordava com a conotação pejorativa que encontrava nos livros: Turismo sexual é algo negativo e ponto final. Como assim? Baseado em que? Claro que as referência bibliográficas tratavam de exploração infantil e de prostituição. Como se somente turistas fossem a puteiros ou que pedofilia acontecesse somente com viajantes. Precisava comprovar que turismo sexual pode ser bom, pode ser legal. Sem exploração sexual e sem exploração infantil.
Pensei em viajar num cruzeiro de estudantes. Só um pai inocente pode achar que num cruzeiro de estudantes o mais importante é conhecer os lugares que o navio atraca. Ou interagir com a comunidade do local visitado. Óbvio que foco é a azaração, as festas e, sim senhores, o sexo.
Lembro que uma vez fui convidado por um agente de viagem que me confidenciou que nesses cruzeiros o negócio é fifty-fifty. Metade homens, metade mulheres. Justo! Se houvesse desproporcionalidade, os próximos cruzeiros estudantis estariam comprometidos.
Mas, devido a minha não solteirice na ocasião optei por visitar o Sofazão, tradicional casa de swing de Porto Alegre. O dono, um ex-padre, me afirmou na entrevista que foi primeira casa de troca de casais do Brasil. Foi a única vez em que entrevistei alguém que o Jô Soares já entrevistou.
Parte 1 http://www.youtube.com/watch?v=m8ZY-diLsDU&feature=related
Parte 2 http://www.youtube.com/watch?v=dPYUfjPM8l0&NR=1
***
O Sofazão começou por acaso. Era um restaurante que ía mal das pernas. O Roque, dono do Sofazão, me disse que acrescentou a música ao vivo. Os casais começaram a dançar, e depois pediram um quarto emprestado. Depois outro. Até que o ex-padre percebeu que o pessoal queria sexo. Então propôs que emprestaria o quarto, mas não a chave. E os casais safadinhos aceitam transar com a porta aberta, para delírio dos amantes do exibicionismo.
O Sofazão eu conheci na Zero Hora. Repórteres disfarçados fizeram uma reportagem sobre o local, dias depois do Paulo Sant’ana ter falado da casa em sua coluna de ZH. Depois li em alguma revista, depois no Jô. E por último na internet.
Minha professora co-orientadora, uma antropóloga, adorou a idéia, principalmente por ser um ex-padre o dono do estabelecimento ligado a promiscuídade. Igreja e sexo. Polêmico. E o fato de contestar os conceitos bibliográficos existentes era o que mais me atraía. Iria contra os teóricos através da prática. Fui desaconselhado por colegas de faculdade, que achavam arriscado, que diziam que seria mais difícil fundamentar minha defesa, e temiam pela minha nota. Resolvi arriscar.
Lembro dos comentários nos corredores da faculdade. Muitos queriam assistir a defesa da “monografia da putaria“. Outros faziam piadas. Diziam que haviam transferido minha monografia, marcada inicialmente para 19h para as 22h, pois seria um horário mais apropriado para tratar do tema. Eu não ria, estava nervoso. Só quem já defendeu uma monografia sabe do que to falando. Não estava nervoso, não estava ansioso. Estava cagado mesmo! Iria desafiar as regras, na frente de todos meus colegas, da minha família.
A maioria que lotou a sala de aula queria mesmo era saber da putaria. Poupei os detalhes mais sórdidos durante a defesa, temendo ruborizar minha mãe e madrinha que assistiam a tudo orgulhosamente. Lembro que, depois que a banca saiu para decidir minha nota, fui elogiado por duas colegas, pela forma como tratei do assunto.
***
Aqui no blog, cabe comentários sobre o Sofazão, até então omitidos. Bom, primeiro, fomos - minha ex-namorada e eu - interessados em jantar no Sofazão, mas o restaurante não existe mais. Ela entrevistaria as mulheres, e eu os homens. Era uma forma mais fácil de criar uma intimidade com os swingers. Era necessários deixá-los a vontade.
E eles ficaram depois que as brincadeiras começaram. O Roque fazia as vezes de animador da festa. Justo ele que tinha sido notícia na Zero Hora daquela semana. Era ano eleitoral - 2006 - e ele queria concorrer a Deputado Estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Mas, depois do mensalão, a cúpula do PT no RS resolveu melar a candidatura do empresário.
Abaixo, reproduzo parte da monografia..

2.2 Análise do Sofazão

“Em atividade há mais de dez anos na capital do Rio Grande do Sul, a casa de swing Sofazão já esteve localizada em diversos lugares da cidade Porto-Alegrense. Primeiramente, percebe-se não tratar apenas de um clube de swing, mas um local freqüentado também por praticantes de ménage a trois#, Voyeurs# e exibicionistas#. Seu proprietário, Roque Rauber, gaúcho de Bom Princípio do Sul, afirma ter sido a primeira casa de swing do Brasil. Com 65 anos de idade, Roque foi um padre da Igreja Católica, formado em Teologia em Burgos, na Espanha. Pelo Direito Canônico, no entanto, continua sendo um Padre. Antes disso, Roque já vendeu livros, remédios, casou-se três vezes, teve filhos, foi dono de restaurante. Aliás, foi deste restaurante “pouco lucrativo” que surgia o Sofazão. Nos fundos do restaurante, um espaço para bailes. Através da solicitação dos casais, os shows foram sofrendo alterações, com música ao vivo, shows de streep-tease e , enfim, sexo explícito. A excitação era tamanha que um quarto era cedido aos casais extravasarem seus desejos. Quando o proprietário resolveu cobrar uma taxa para utilização do quarto, a negociação ocorreu da seguinte forma: em troca da utilização da peça, os casais tinham de deixar a porta aberta. Assim, Roque percebera que vários casais gostavam de olhar e outros de serem observados. Foi nesta mesma época que o restaurante era locado para aniversários, casamentos e festas infantis.

O Sofazão abre suas portas de terças a sábados. Atualmente, localiza-se em um prédio, na Avenida Assis Brasil, em uma avenida de intenso fluxo de veículos que contrastam com uma fachada discreta, estampada com o desenho de um sofá, de lado a lado da do frontal.
O ambiente é constituído por duas áreas principais. A parte térrea é o local onde ocorrem as brincadeiras, as trocas de olhares. A parte superior, nas sextas e nos sábados, é onde os casais se dirigem para realização de suas fantasias. Porém, o acesso ocorre somente após a uma hora da manhã. É lá que se encontram outras suítes, com destaque para o quarto escuro, cujo nome torna desnecessária apresentações, e o confessionário – local para observação de casais através de uma divisória de madeira vasada, tal quais os confessionários utilizados pelos padres das Igrejas Católicas.
No hall de entrada, além dos banheiros bem cuidados – com trancas, inclusive – um peça com armários, onde os casais deixam seus pertences. A chave do cadeado permanece presa ao pulso do homem envolta a uma pulseira de borracha.
O ingresso custa R$ 20.00 por casal, enquanto que os solteiros pagam R$ 50.00. Elevado também é o preço das bebidas, aonde o custo de uma lata de refrigerante chega a R$ 5.00. Sigilo é o preço do sexo ofertado pelas mulheres que andam pela casa. Fato é que a prostituição de mulheres ocorre no mesmo recinto onde casais fazem sexo sem exploração.
A decoração é sempre temática, desde festas de aniversário, carnaval de inverno ou de verão, desfile de fantasias – ou da falta delas -, o corno mais feliz, a miss galinha, os destaques do ano e outros. Na ocasião, a decoração era com balões verdes e amarelos e bandeiras do Brasil, visto realização da Copa do Mundo de futebol na Alemanha.
(...)
2.3 As brincadeiras de salão

O ambiente gera expectativa. Percebe-se certa timidez, mesmo nos casais mais experientes. A movimentação deve-se a alguns casais que dançam discretamente nos cantos do salão e ao deslocamento em busca de alguma bebida. As músicas, em som ambiente, abrangem aos mais variados estilos. As portas abrem às 20 horas, embora o movimento tenha começado às 22 horas aproximadamente, com a chegada dos primeiros solteiros e casais. Às 23 horas desce o mestre de cerimônias de um espetáculo que durará cerca de oito horas. Trajando um terno alinhado, Roque cumprimenta todos os clientes, procurando deixa-los à vontade. Já com um número razoável de participantes, Roque dá inicio a uma série de atividades que buscarão desinibir os casais. A primeira brincadeira é a dança da cadeira, devidamente adaptada aos interesses dos participantes que no princípio são as garotas de programa e os solteiros, já que nenhum casal parece desinibido. Ao invés de cadeiras, uma mesa de madeira. Ao invés da eliminação precoce, o participante que não conseguisse sentar a mesa, tirava uma peça de roupa e quando estivesse nu, permanecia sentado aguardando o restante da brincadeira. A brincadeira acaba quando resta um único participante com alguma peça de roupa.
A segunda brincadeira acontece alguns minutos mais tarde. Roque a chama de “a escolha do pequeno e do maior”. Com muita descontração, os participantes, em troca de duas cervejas, são apalpados por duas garotas que circulam perante os sofás com uma lanterna na mão para eleger os maiores e menores pênis dentre os participantes.
Com a lotação maior, começa a terceira apresentação da noite. Através de uma pequena representação teatral, onde os “atores” são uma das garotas que faz programa e um solteiro que participava pela primeira vez naquela noite. A “peça” encenada na frente dos casais foi ensaiada verbalmente no hall de entrada. O “ator” representou um bêbado, enquanto que a “atriz” representava uma prostituta. O desfecho foi uma cena de sexo explícito, no meio do salão, a dois metros dos sofás onde estavam os casais.
A quarta brincadeira teve participação de praticamente todos os casais. A “dança da vassoura” ocorreu ao som de forró. A natureza da brincadeira consiste em uma troca constante entre os pares dançantes em substituição a uma vassoura. Duas músicas seguidas e os casais já estão prontos para acessar o andar superior onde ocorrem as “atrações sexuais”.

***
O que mais me marcou nessa experiência, nesse mundo da troca de casais foi que todas as pessoas que lá estavam eram pessoas comuns. Senhoras e senhores trabalhadores. Nenhuma gostosa estupenda, nenhum garanhão alado. Poderiam ser meus pais, meus tios, meus amigos. Não nego uma ponta de decepção após essa constatação. Bem, quem mandou eu imaginar um mundo fantasioso vivido por pessoas saradas?
Relativizar é um grande desafio na nossa sociedade preconceituosa e hipócrita. Achei os 9,5 uma nota excepcional, mas preferi os comentários da banca e dos meus colegas. Não tenho dúvida, que aquele aluno fraquinho que eu fui, fez um bom trabalho enquanto era tempo, comprovando que pessoas podem viajar para outros lugares em busca de sexo com pessoas que viajaram em busca de sexo, sem que haja exploração sexual ou exploração infantil. A teoria está equivocada.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

a mulher fiel

A mulher fiel passou pela vida do Roger. Poderia ter passado e sumido, assim como passam várias diariamente. Mas, a internet os aproximou. Quando se conheceram tiveram o mesmo interesse, a vontade recíproca, trocaram olhares, aquela coisa toda, mas nada. Ela era fiel, casada, religiosa. E carioca! E as mulheres cariocas, dizem, são as melhores. Conheceram-se ao acaso. Conversaram e tal. Ela era linda, tinha um sotaque gostoso, carregado, era simpática. Mãe, mas com o corpo intacto. Não era alta, pelo contrário. E fiel, mesmo diante das crises que antecedem as separações.
Ela foi embora, para sua cidade. Perderam contato. Ele deixou de lembrar dela, no entanto, sem esquecê-la. Até que recebe um convite, pelo site de relacionamento no qual participava. Bem útil essas ferramentas tecnológicas que permitem esse tipo de aproximação entre as pessoas.
- Lembra de mim? - dizia ela no comentário da adição.
Lembrava. Tanto que deu vontade de revê-la. Mas, como? Se ela ao menos ela estivesse solteira. Conversaram mais algumas vezes, por outro programa de conversação, desses que todo mundo tem. Acredito que ainda no meio deste século registrarão as crianças com um nome e sobrenome, com RG, CPF e MSN. Todos os dados estarão registrados no mesmo cartão de identificação.
Ela estava casada ainda. Não havia se separado, porque sua filha era pequena e talicoisa. Mas, estava cada vez mais abandonada, carente. Roger não gostava de mulheres casadas. Contudo, solidarizava-se com as carentes. Preferia as solteiras que são menos complicadas. Mas, era impossível não gostar dessa. Um risco excitante, uma mulher apaixonante. Resolveu arriscar. Uma mulher fiel é algo que atraí. O perigo atraí, e mulheres fiéis são cada vez mais raras. Além disso conquistar uma mulher com princípios, convencê-la a mudar de idéia é um desafio, um desafio para um Roger.
- Tenho férias pra tirar no mês que vem. - comenta despretensiosamente.
- Vem pra cá? - provoca ela.
- Até iria, se tu não fostes fiel.
- Sei...
- Iria mesmo. Não duvide.
- Nunca vou trair meu marido com outro homem. Jamais! Enquanto for casada, serei fiel.
- Tenho onde ficar. Uma amiga mora aí. Mas, somente iria se valesse a pena.
- Então vem. Você não vai se arrepender.
Roger blefou. Não tinha grana. Como iria sair do extremo sul do Brasil e atravessar o Brasil? Era louco o suficiente, mas precisava de uma carona. Assim foi.

Comenta com um, depois com outro e conseguiu uma carona. Iria de caminhão, na primeira semana de férias. Teria de juntar dinheiro pra volta. Combinou com a amiga a hospedagem, arrumou a mala e foi. Nunca tinha andado de caminhão. Foi apresentado aos caminhoneiros no dia do embarque.
- Temos que carregar o caminhão, numa cidade do interior e depois vamos subir. Vai até aonde? Tem hora pra chegar lá? - pergunta o dono do caminhão.
- Não tenho pressa. Vamos indo e vejo onde vou descer. - diz Roger.
Poucas vezes sentiu-se tão confortável na estrada. Foi na janela, na carona. O ajudante do caminhoneiro, foi dormindo, na cama que existia na cabine.
- Pode colocar os pés no painel. Fica a vontade que a viagem é longa. - oferece o caminhoneiro. - Vai até aonde mesmo?
- Longe. - disse o Roger, com o pensamento na capital fluminense.
- Nós vamos até Jacareí, pode ser?
- Ótimo. - disse ele, sem sequer fazer a menor idéia de que Jacareí ficava em São Paulo.
Viagem longa, troca de motorista e uma viagem quase tranqüila. Tentava permanecer acordado o tempo todo, e o temporal que passara por Santa Catariana não o deixou cair em sono profundo. Na BR 101, pode observar os estragos do temporal, daqueles temporais que destroem tudo por lá. Árvores na estrada, casas destelhadas. A lua cheia iluminava à noite na estrada, o que facilitava a visão da destruição. Viajaram a noite inteira. Sonolento, acordou com o barulho estranho, já pela manhã. Leu nas placas: Curitiba. Algum problema havia ocorrido com a Scania. O dono do caminhão acordou também:
- Entra naquele posto. Tem uma oficina ali. - disse ele.
Roger não entendia nada de mecânica. Ficou na volta, de curioso. O mecânico disse que tinha de trocar uma peça. Só seguiriam viagem as duas horas depois. Antes, foram tomar café.
- Vamos chegar a noite em Jacareí - disse um deles.
O café foi reforçado. Não parariam para almoçar. A próxima parada seria a noite, em São Paulo. Troca de motoristas e seguiram rumo a grande São Paulo, onde chegaram tarde da noite. Antes de partir, Roger tomou um outro banho e saboreou mais um Prato Feito, chamado de PF. Agradeceu a carona e foi embora. Gostou de viajar de graça. Chegou na rodoviária pós meia noite:
- Para o Rio só as 7 horas da manhã.
- Bah! Pode ser, então. Que horas chega no Rio?
Comprou a passagem. Depois ligou para sua amiga, informando que chegaria por volta do meio dia. Teria de passar a noite na rodoviária. Receoso, não quis conhecer a cidade. Pediu água quente no único bar aberto e preparou seu chimarrão.

No Rio, conseguiu um final de tarde livre, para encontrar a mulher fiel:
- Pega o metrô e desce em Botafogo. - determinou ela, de forma objetiva.
Ao descer em Botafogo teve uma surpresa. A mulher fiel estava acompanhada de uma outra moça, uma loira bonita e simpática. Aliás, não existe carioca antipático.
- Essa é uma amiga minha. Vai nos acompanhar no motel. - explicou ela.
- Sabia que tu não irias me decepcionar, carioca. - vibrou ele.
Desceram até o metrô e embarcaram para a Glória:
- O motel que descobri, aceita que três entrem num quarto, mas cobram duas diárias...
- Eu pago! - gritou ele, dentro do metrô lotado.
Na recepção, sentiu pela primeira vez o prazer de ser invejado. Duas gatas o acompanhavam. A recepcionista do hotel olhou para ele, ensaiou um “pois não?“, mas quando observou as duas mulheres que o acompanhavam, deve ter relembrado da ligação feita a tarde, e logo alcançou a chave, esclarecendo que “seriam cobradas duas diárias”. Conversavam e bebiam no quarto, intercalando a ducha de chuveiro. Quando o Roger voltou do banho e viu a mulher fiel chupando a amiga carioca, achou que a mulher fiel não era tão fiel assim. Quando ela percebeu que ele estava escorado no marco da porta, observando a cena, ela disse:
- Ela tá pronta. É toda sua.
Roger consegui transar com uma carioca. A mulher fiel manteve-se ao lado, observando de perto a foda. Permaneceu ao lado do casal, acariciando-os. Mas, conforme havia prometido ao seu esposo ausente perante as leis da sua igreja, jamais, enquanto estivesse casada, o trairia com outro homem.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

a guria do quinto andar

Criado em casa, Roger sempre certo fascínio por apartamentos. Quanto mais alto, melhor. Gostava da sensação de olhar de cima, de ver as pessoas pequeninas, como se fossem playmobis, tal qual os que brincou quando pequeno. Além disso, do alto, conseguia avistar outros apartamento e observar o que os outros faziam.
Lembro da época em que estudamos juntos, e do alto do prédio da faculdade enxergávamos um apartamento onde a moradora trocava de roupa com a janela aberta. Os homens olhavam para esquerda, com os olhos apontados para o corpo violão da moradora, que a distância era bonita. Na sala, na outra janela, os pais dela assistiam televisão. As colegas de aula olhavam para o professor ou professora, aparentemente prestando atenção na aula. Os mais ousados abanavam, mas a moça fingia que não sabia ser observada.
Roger sempre gostou de observar, desde cedo descobriu-se um voyer. Talvez por isso seja fã desses programas onde as pessoas ficam confinadas numa casa. Uma amiga lhe confessou uma vez que, interessada no vizinho de janela, do prédio ao lado, fez um cartaz, onde pintou seu nome e telefone e colocou no vidro da janela, para que o vizinho visse. Ele ligou e mantiveram contato por um bom tempo. Questão de atitude, e homens gostam de mulheres com atitude. Ele, até então, nunca tinha tido a oportunidade de aproximar-se de alguém que observara de longe.
Até que conheceu uma menina que morava no nono andar de um prédio. Da janela do nono andar, viu uma menina, do prédio ao lado. Ela morava no quinto andar, mas vivia na janela. Penteava-se na janela. Comia na janela. Escovava os dentes na janela. Olhava o movimento pela janela. Havia uma buzina qualquer na rua e ela espiava pela janela. Mas, como Roger andava acompanhando e entretido com a menina que morava no nono andar, nunca conseguiu uma troca de observações ou um abano qualquer. Até que um dia a menina do nono andar dormiu cedo, e o Roger ficou desperto, andando pelo apartamento. Resolveu comer uma pizza. Foi jantar na janela. Do outro lado da rua, no prédio em frente, no quinto andar, a menina também jantava. Jantaram os dois juntos, cada um numa janela, cada um no seu andar, cada um no seu prédio.
Entre uma mordida e outra, ele abanava. Ela então virava o rosto. Mas, só virava o rosto quando ele a abanava. Precisava de um binóculo para ver se ela o olhava. Ou de um laser point para chamar a atenção dela. Na dúvida, foi tentar dormir.
O tempo passou, e a menina do nono andar tornou-se uma amiga. Um dia, foi devolver um CD ou um DVD, não lembra. Ao sair do edifício, olha pra trás e vê, na janela, a menina do quarto andar, na janela. Ela gostava da janela. Resolveu ter atitude, resolveu arriscar. Voltou e parou diante do interfone. Seria o 401 ou o 402? Apertou os dois. Uma voz feminina atendeu:
- Quem é?
- Oi. É do 402? - pergunta Roger.
- Não. Aqui é o 401. - responde ela com uma voz rouca, de quem pega sereno na janela.
- Quem fala? - arrisca.
- É a Ana. Quem é?
Ana. Bonito nome. Simples, fácil. A voz era a da Ana Carolina. Não esqueceria mais. Disse que tinha apertado o número errado e foi embora, pra voltar noutra hora, com mais tempo.
Dias depois, passeando de carro, decide que era o grande dia. Passa de carro e espia pela janela. A luz acesa, mas Ana não estava na janela. Estaciona e espera. Troca a estação do rádio. Ouve uma música e aguarda. Ainda tinha 30 minutos disponíveis, antes de um outro encontro. Ana não aparece na janela. Duas músicas depois, desce do carro e vai até o interfone. Lembrava o nome da menina da janela, mas não lembrava o número do apartamento. Aperta os dois, um depois o outro. Atende um homem:
- Quem é? - pergunta ele, com uma voz afeminada, macia.
Roger não responde, apenas espera. Poderia ser o namorado dela, mas a voz dela é mais máscula do que a dele. Não combinariam namorando. Também não deveria ser irmão, porque irmãos com voz tão distinta é difícil. Se bem que ela passa o dia na janela...
- Quem é? - agora a pergunta é da menina da voz rouca.
- Ana? - pergunta Roger.
- Sim. Quem é?
- Bom... Meu nome é Roger. Eu moro no prédio amarelo, no nono andar. E... sei lá, te achei bonita de longe, queria ver de perto.
Atitude ele teve. Mas, quando se tem atitude o cara é atirado. Quando não tem atitude, o cara é tímido. E a Ana, da voz rouca, acabara de ficar muda.
- Ana? Você ta aí? - pergunta.
- Como tu sabes meu nome?
- Esses dias eu desci e perguntei no interfone. Disse que era engano...
- Vou descer.
Ela desceu. Era bonita. Magra. Se você fechasse os olhos não acreditaria que aquela voz aveludada saía daquele corpinho esbelto. Cursava faculdade, morava há pouco tempo na cidade. Trocaram algumas idéias e os 30 minutos passaram voando. Roger teve de ir, mas pediu para voltar outro dia. Ela disse que não teria problema.
- Te procuro então. - disse ele. Sem telefones, sem e-mails. O único contato seria através do interfone.
Dias depois ele voltou. Um fardo de cerveja, bem gelada. Aperta os dois números do interfone. Ela atende.
- Quem é?
- O Roger.
- Tu sumiu. Não te vejo no nono andar, só vejo uma menina lá. - entrega-se a observadora.
- Me mudei. - mente.
- Quando?
- Dias atrás. Trouxe umas cervejas. Quer? - pergunta para mudar de assunto.
- Peraí que vou descer.
Depois das três latas de cerveja que cada um bebeu, ela o convida pra subir:
- Vamos subir. Tenho mais cerveja lá em cima.
E bebem mais algumas cervejas, escorados no para-peito da janela, olhando o movimento. A vista era legal do quarto andar. As pessoas ficavam mais próximas e maiores, o barulho era maior. E ali, na janela, beijam-se pela primeira vez. E naquele quarto, com a janela aberta, transam pela primeira e única vez. Adormecem com a brisa que vinha da rua.
- Bom dia. - diz ela com a voz mais grossa ainda.
- Que horas são? - pergunta ele, ainda com os olhos fechados.
- 7 horas. Tens que ir. Meu namorado está chegando.
- Namorado? - pergunta ele, já com os olhos bem abertos.
- Pois é. Não te falei. Tenho namorado. Vou noivar final do ano. Vou buscar ele na rodoviária daqui há pouco.
Roger foi embora. Foi usado pela menina carente, que fazia tudo na janela, da voz grossa, que ficava observando a tudo e a todos. Ao menos com essa, Roger jantou, mesmo que a distância, antes de ir pra cama.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

o sonâmbulo

Roger tinha uma qualidade que eu queria pra mim. Dormia bem. Sentado, entre uma viagem e outra, não tinha problemas com o sono. No ônibus, dormia antes de sair da rodoviária. Deitado, na cama então, nem se fala. Depois do sexo, tinha que levantar, para não dormir na cama e deixar a mulher sem carinhos e conversas que as mulheres precisam. Dormia bem. Cansado ou não. Não acordava por nada. Sono profundo, daqueles que nós mortais só temos aos domingos de chuva pela manhã.
Certa vez houve um tiroteio no seu bairro. Vizinhança acordada. Correria. Polícia. No outro dia, a prisão do bandido era a notícia do churrasco de meio-dia. Disseram que o policial atirou no ladrão que estava sobre o telhado da casa do Roger. Ele não ouvira nada. Ficou sabendo pelos outros. Não acordou, tampouco ouviu o tiro. Talvez, para seus ouvidos, durante o sono profundo, um tiro de revólver soasse como uma espoleta de armas de brinquedos.
Em determinada ocasião, ele ficava com uma garota. Nada sério. Ela era comprometida, o que a tornava mais interessante. Uma amizade regada ao bom sexo. Apenas isso. Ela morava com uma amiga, eram colegas de faculdade. Uma mais interessante do que a outra. Queria as duas, mas não obtinha sucesso nas suas constantes investidas. Uma vez ela o visitou. Sexo, bom sexo.
Após o sexo, ele foi ao banheiro. Em silêncio, sem dizer aonde ia. Na volta, passa pela cozinha e traz uma garrafa de água mineral. Volta pro quarto, quieto. Senta na cama, bebe a água. Coloca a garrafa sobre o criado-mudo, um pouco bagunçado. A garrafa foi largada sobre um pacote, fazendo um barulho. Depois, deitou e dormiu. Sem falar nada.
No dia seguinte, ela jurava que ele estava dormindo. Diz ter ficado receosa até, com medo de que ele fosse um sonâmbulo. Não quis acordá-lo, por que à crença popular diz que é perigo fazê-lo. Ele sabia que não estava dormindo, tentou argumentar, mas foi em vão. A universitária teimosa achava que o Roger era sonâmbulo. Contou pra amiga, sobre o sonambulismo. Riam muito. Debochavam. Pois bem, que achassem.
Noutra oportunidade, ele retribuí a visita. Sexo, bom sexo. Depois vai ao banheiro, sem falar nada. De todas as tentativas, de todas as possibilidades, aquela idéia que teve enquanto mijava era a melhor e mais atrevida de todas. Saiu do banheiro, apagou a luz e foi, tateando, em direção ao quarto da amiga. Sabia que não iriam acordá-lo. Teriam medo. A porta estava fechada, mas não trancada. Entrou. Não enxergava absolutamente nada. esperou alguns segundos para dar o primeiro passo. Tentou lembrar onde era a cama da amiga. Hesitou após o primeiro passo. E se ela acordasse ou se ela levasse um susto? Seguiu, mais alguns passos. Não levantava os pés descalços, arrastava-os vagarosamente em direção a cama. Chutou alguma coisa, provavelmente um chinelo. Estava chegando. Com as mãos procura a cama. Não acha. Mais um passo, desse vez com o pé esquerdo. Agora sim, toca o cobertor. A moça se move. Ele não sabe bem o que fazer. Resolve sentar na cama, perto dos pés dela. O coração palpita de forma alucinada. Tenta se acalmar, respira mais devagar. Abre os olhos e fecha os olhos. Não faz diferença. As mãos estão úmidas. Coloca a mão direita sobre os pés dela, que estavam tapados somente com o lençol. Fecha os olhos, talvez com vergonha. Passa a mão nos pés dela. Vestia meia. Sobe, em direção a panturrilha. Sente a pele macia, hidratada e depilada. Ela se move. Ele retira a mão. Ela se move novamente. Silêncio. Ajeita o travesseiro, ergue-se um pouco. Ele percebe que está sendo observado. Já não sabe se pela parceira que teria ficado adormecida e poderia espiar pela porta que ficara entreaberta, ou pela sonolenta que, que parecia tentar entender quem estava aos pés da sua cama de solteira. Arrisca e recoloca a mão no mesmo lugar que havia colocado. A respiração dela já não é profunda, mas ela está imóvel. Ele segue fazendo um carinho. Ela move a perna tocada, encostando o pé na coxa dele. Ele então passa a mão pela canela exposta e segue até o joelho. Ele já não tem dúvidas: ela está acordada. Passeia os dedos pela panturrilha torneada da moça. A perna direta dela está encolhida, em formado de ‘L’. A outra esticada. Ele troca de perna, deixando-a destapada até a altura das coxas. Acaricia com mais vontade, cada vez mais preocupando-se menos com os movimentos. Não restavam dúvidas, ela estava acordada.
Não estava ofegante, já havia relaxado. Precisava agir. Não poderia ficar toda noite ali. O pior já teria passado. Ela o viu, e fingia estar adormecida. Então ajoelha-se no chão, encurva-se sobre ela. Sente o cheiro do hidratante. Encosta os lábios na pele macia. Beija suavemente suas pernas. Passa a língua. Sente sua pele ficar arrepiada. Era o sinal que precisava para avançar. Sobe os beijos acima do joelho. Ela corresponde, permite que ele avance. Sobe as mãos até os quadris, e sente a calcinha de algodão minúscula. Passa a língua pelas coxas, na parte interna. Ela solta um suspiro, quase um gemido. Com as duas mãos a segura pelos quadris. Aproxima-se da calcinha. Sente o cheiro. Gostava do cheiro. Beija, lambe, sobre a calcinha de algodão. Ela estava molhada. Sente o gosto molhado que ultrapassa roupa íntima. Brinca sobre o tecido por alguns minutos. Se estivesse acordada, ela já o teria mandando tirar a calcinha. Mas, ele apenas arreda a calcinha, com a mão direita a parte superior, com a esquerda a parte de baixo. Agora sim, sente o cheiro, o gosto e a maciez. Ela já não escondia o prazer que sentia. Gemia descaradamente. Ficaram assim, até ela gozar. Tempo suficiente para deixá-lo com o maxilar adormecido. Ele colocou a calcinha no lugar. Ela não falou nada. Apenas, cobriu-se com o lençol. Enxugou-se no lençol. Ergue a cabeça. Move o pescoço pra trás, depois pra frente, tal qual aprendeu na ginástica laboral. Para o lado esquerdo, depois para o direito. Foi quando percebeu um vulto, na porta entreaberta. Haviam sido observados. Resolve voltar pra cama.
Algumas coisas são difíceis de se explicar. O que acontecia entre os dois era bom. O que aconteceu entre os três, foi diferente, nunca mais se repetiu. Nenhum dos três ousou tocar no assunto. E a noite foi interminável para o Roger, que dessa vez não conseguia dormir, mas que definitivamente não era um sonâmbulo.