sexta-feira, 9 de julho de 2010

banho

Lembro que quando era pequeno não gostava de tomar banho. Não gostava mesmo, e daí! Moro no sul do sul do mundo, e aqui faz um frio desgraçado. O chuveiro da época não regulava do jeito que eu queria, nem existia esses com regulagem. Ou era frio (desligado), ou era morno (que era frio), ou era quente (escaldante). Lembro do meu pai, em pé no vaso, trocando a posição do morno para o quente:
- Deu! - dizia eu, depois de me ensaboar.
- Deu! - dizia eu, para me enxaguar.
Pobre velho! E tem gente que acha que só as mães sofrem pelos filhos. Só que depois ficava bom e aí eu não queria sair mais. Por mim passaria o resto das noites frias do inverno gaúcho ali, embaixo das águas, ora quentes, ora mornas, que meu pai ajustava empoleirado no vaso. Lembro de uma época que colocávamos álcool numa latinha de sardinha para esquentar o ambiente. A pobreza é foda, e as vezes mata. Depois que alguns bateram as botas com essa tecnologia nada moderna, meu pai voltou a subir no vaso.
Sair do banho era pior ainda. Lembro que enquanto meu pai estava ali, se exercitando sobre o vaso sanitário, minha mãe deitada na cama, embaixo das cobertas aquecendo com o corpo minhas meias, camisetas e calças. Ok, me rendo: sou filho único. Acho que meus pais desistiram de ter outro filho com medo de passar as noites em volta do banheiro.
Sempre tive vergonha de admitir que não gostava de tomar banho no inverno. Era um sofrimento, mas eu tinha receio de ser motivo de chacotas. Então cresci e descobri que no frio do Rio Grande do Sul, franceses são ídolos.
Já na adolescência tenho lembranças remotas dos meus tempos de futebol de salão. Íamos jogar nos horários mais esdrúxulos:
- Que horas é o jogo? - perguntava.
- Das onze à meia noite! - gritava quem havia marcado a quadra.
Era um desperdício de tempo e de dinheiro. Nos quinze iniciais, as articulações não permitiam o acerto de passe, o domínio, um pulo. Doía os pés, os joelhos, as costas que estavam contraídas. O que dirá então de correr. Então o corpo aquece, e o choque térmico somado com o medo de levar uma bolada em qualquer parte do corpo, faz com que a próxima meia hora de jogo seja de muito sacrifício e cuidado por parte de nós jogadores. Os últimos quinze minutos são sofríveis, ninguém consegue respirar o ar gelado que entra no organismo quente. Dói respirar pelo nariz, incomoda respirar pela boca. Felizmente vamos pra casa. No caminho, alguém diz:
- Vou chegar em casa e me deitar assim mesmo.
- Bem capaz! - diz outro, mais consciente. - Eu vou chegar, jantar antes e só depois me deitar, porque tá frio pra caralho!
Ali eu vi que não era só eu que não gostava de banho no inverno. Envelheci, comecei a namorar, dormir na casa de amigas, morei com amigas. Então, definitivamente, vi que mulheres vão além de não lavar os cabelos diariamente, quando se trata de higiene pessoal. Mulheres também enforcam o banho. Resolvi aceitar o meu desprazer em tomar banho no inverno, conciliando com a necessidade higiênica, e sempre que posso, tomo banho a cada um dia e meio. Num dia a tarde, noutro tarde da noite, no outro eu enforco, mas quando acordo e a temperatura está próxima de 0°C, tomo banho pela manhã. O pior é pensar que ainda estamos em junho.

2 comentários:

  1. é cruel tomar banho no inverno, isso eu concordo, me lembro de quando eu era pequena, uns cinco anos, em Laras do Sul, meu irmão ainda nene tinha uma baba envangélica, e as irmãs dela iam todas lá pra casa, cuidar da cria. Um dia, uma delas foi me ajudar no banho, e quando lascou o fósforo e jogou o pausinho na latinha de álcool, foi aquele alvoroço, pegou fogo nos vastos cabelos da moça.

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